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Carta Aberta aos Alexandrinos do Brasil



Aos meus amados membros da Tradição Alexandrina do Brasil, permitam-me começar da forma apropriada: Blessed Be!


Desde já, peço desculpas pela arrogância e pretensão de escrever uma carta aberta a todos vocês. Afinal, quem sou eu? Confesso que, inicialmente, essa ideia me gerou preocupação. No entanto, o amor que sinto por nossa Craft é maior do que qualquer receio em publicar este texto. Ela é construída por cada um de vocês, portanto, essencialmente, esta é uma carta de amor e cartas de amor precisam ser enviadas.


É uma tarefa árdua escolher palavras para expressar o que não pode ser diretamente dito. Felizmente, temos o poder de compreender o não dito, fruto de nossa prática ao longo dos anos. Conto com esse superpoder de vocês nos próximos parágrafos.


Como mencionei, esta é uma carta de amor, então declaro publicamente o meu amor por vocês. A Tradição Alexandrina no Brasil é conduzida por brasileiros, um povo de sangue quente (o próprio nome do país, Brasil, deriva de brasa) e profundamente espiritualizado. É interessante como, não importando a região ou a religião, os brasileiros possuem uma conexão espiritual extremamente forte. Recentemente, foi divulgado um estudo em que o Brasil aparece no topo do ranking dos países onde há maior crença em Deus, mesmo sendo um país laico. Seria muito interessante se houvesse uma pesquisa sobre qual país possui a Tradição Alexandrina mais vibrante, intensa e viva. Duvido que algum país supere o nosso. Pode parecer arrogância, mas que alguém prove o contrário.


Nós somos uma tradição vibrante, cheia de vida e verdadeiramente próspera, com pessoas engajadas em diversos covens. Possuímos uma combinação rara: um povo verdadeiramente mágico somado a um vasto arsenal mágico em nossas mãos - a Tradição. É sobre isso que eu gostaria de falar.


Nossa Craft é formada por símbolos que muitos gostariam de decifrar e interpretar, presumindo que as chaves para desvendar esses símbolos estejam ancoradas no passado (ou nas pessoas do passado). Posso tentar convencê-los do contrário? Peço desculpas pela aparente arrogância e que sigam comigo até o final.


Os símbolos são criações humanas. E o homem é influenciado pelo seu entorno. Ele transforma em símbolos tudo o que atravessa sua vida. As pinturas rupestres, uma das formas mais antigas de símbolos, realizadas pelos hominídeos, refletiam simplesmente sua rotina. O mesmo ocorre com os símbolos mágicos. Eles não passam de representações daquilo que é inerente à natureza humana. Existe uma miríade de símbolos e rituais, todos criados e registrados por seres humanos, que, portanto, falam essencialmente sobre nós: sobre mim e sobre você.


Os símbolos pertencem à humanidade e narram a experiência humana, a existência de aqui e agora, e não apenas de rituais mágicos ou de contextos religiosos. Em suma, a magia é muito mais do que o que tradicionalmente se classifica como magia. Ela está interligada a tudo o que nos rodeia, inclusive aquilo que aparenta ser “não mágico”, como a matemática, biologia, psicologia, antropologia, e assim por diante. Todo o arcabouço de conhecimento e ideias formulado pela humanidade, que nos ajuda a compreender melhor tanto o âmbito intrapessoal quanto o extrapessoal, também é magia. Portanto, todos os símbolos que foram criados, estabelecidos e receberam contornos são um reflexo de como o ser humano percebe a vida e como as experiências da vida o atravessam.


As chaves para os mistérios mais profundos não estão guardadas em um livro na estante ou nas palavras de um iniciado de décadas passadas; essas chaves já estão em nossas mãos – especialmente nossas, que somos um povo mágico! A magia adquiriu forma pelas mãos da humanidade e diz respeito à experiência humana, e nós somos seres humanos atravessando a vida; portanto, não precisamos de ninguém, além de nós mesmos, para irmos profundo no oculto.


Isso não significa que devemos desconsiderar o papel fundamental dos indivíduos que foram nossos Elderes. Pelo contrário, devemos honrar e respeitar nossos Anciãos. A comunidade científica não perdeu o respeito por Newton quando se descobriu que a gravidade não é uma força de atração, mas uma distorção do espaço. Sem Newton, muitos avanços nessa área não teriam ocorrido naquele momento. Portanto, honremos o trabalho dos nossos Elderes, mas sejamos os instrumentos que revelam uma nova perspectiva sobre todas as certezas que tínhamos até então. Como Alexandrinos, somos, SIM, transgressores! Imagine Alex Sanders em ação durante os anos 60 e pense se suas atitudes transgressoras não chocavam aqueles que buscavam manter rígido e engessado algo que, por sua própria natureza, é elástico - o Poder! O poder é flexível, e qualquer ideia que busque rigidificá-lo está nos desempoderando! Não permitamos que isso aconteça!


Os mais desatentos poderão ler minhas palavras e pensar: "Então você está falando sobre a descaracterização da Tradição”.


Não! Nossa Tradição é essencial! Ela nos lega sua essência! Nosso caminho é em direção ao centro e não o contrário! No capítulo 2 do livro "What Witches Do", Stewart Farrar expõe algo muito interessante que reproduzo a seguir em português:


"Quando um bebê nasce, nós saímos e compramos roupas para ele. O design dessas roupas é determinado em parte pela cultura e tradições que remontam à primeira mulher das cavernas, que envolvia seu filho em pele de animal, e em parte pelas condições atuais, materiais e técnicas. À medida que o bebê cresce, fornecemos roupas novas que estão em sintonia com seu desenvolvimento. No entanto, as roupas não são o bebê."


O que considero mais belo sobre a citação acima é a sua evidência: a mulher moderna não escolhe as roupas do seu bebê da mesma forma que a mulher primitiva, que basicamente o envolvia com as peles disponíveis. No entanto, o motivo por trás dessa ação é o mesmo; é a essência desse ato.


Existem muitos caminhos em direção ao centro e nós sabemos muito bem que o centro é o ponto mais importante de todos - é o objeto do nosso culto! Se soubermos onde queremos chegar, e se esse centro não estiver corrompido, não importa qual caminho preferimos seguir. Alguns podem tentar convencê-los de que há apenas uma forma, um meio, um ponto de vista. No entanto, qualquer pessoa que sustente tais afirmações está declarando que "a melhor forma de vivenciar e praticar a Tradição já foi contemplada, experimentada e documentada" e que não há mais nada a ser descoberto a respeito disso. Se isso fosse verdade, não haveria mais razão para a Craft existir, pois ela é moldada por pessoas e as pessoas mudam. O mundo muda e influencia o ser humano, e então o ser humano transformado faz novas transformações no mundo, que por sua vez voltam a influenciá-lo. Estamos constantemente evoluindo, pois o progresso é uma Lei! Qualquer um que acredite que não há nada de novo, emocionante e aprimorado a ser descoberto e alterado na FORMA do que fazemos – não em sua essência – não é bem-vindo na presença da Deusa. Será que sou audacioso ao afirmar isso? Leia com atenção:


“Ye who are fain to learn all sorcery, yet have not won its deepest secrets. To these will I teach things that are yet unknown and you shall be free from slavery”.


Brasil, be free from slavery! Nós somos um povo mágico, poderoso, apaixonado e intenso! Como Alexandrinos, também somos transgressores! Não acreditem que os segredos da magia estão nos olhos alheios. Eles residem em nós, individualmente, na Tradição de todo um país, nos novos caminhos que podemos trilhar e na elevação do nosso trabalho para um novo patamar. Não precisamos da validação de ninguém! Nós, Altos Sacerdotes e Altas Sacerdotisas de 3º grau somos seres completos e livres em uma religião sem um líder centralizado. Devo ressaltar novamente: sempre honrarei meus Elderes e peço que façam o mesmo. No entanto, se nos apegarmos a Newton, acreditaremos eternamente que a gravidade é apenas uma força de atração. Este país é nosso, e essa Arte é tão nossa quanto de todos aqueles que vivenciaram seus mistérios e foram profundamente tocados no processo. Sigamos em frente com coragem, sem nos preocuparmos com questões irrelevantes, como com quem apareço em uma foto no Instagram ou quem declara publicamente seu reconhecimento por nós. Nosso círculo é poderoso e transformador demais para permitirmos que nos distraiamos com ideias tão efêmeras.


Como mencionei, hesitei bastante antes de decidir publicar esta carta, considerando suas possíveis consequências. No entanto, movido pelo Perfeito Amor e pela Perfeita Confiança, senti a necessidade de expressar isso, e fazê-lo de forma pública. Independentemente de se serei compreendido ou mal interpretado.


Protejamos o que nos pertence, e somente a nós, quando se trata do Brasil. Somos Grandiosos. Somos Fortes. Somos Autossuficientes. E, apesar de pequenas diferenças que possamos ter entre nós, estaremos sempre unidos em defesa mútua. A maioria de vocês me conhece e sabe quem eu sou, e estarei sempre vigilante e atento para proteger-nos, caso seja necessário. Façam o mesmo por nós. É a única coisa de que precisamos. Todas as outras questões e indivíduos, especialmente os não brasileiros, não devem interferir. Portanto, não permitam.


É com Amor que exerço este ato de franqueza. Peço que não interpretem mal minhas palavras.


Que a Deusa me conceda compreensão!


Um grande abraço a todos!


Blessed Be!


Alan Cohen

Alto Sacerdote do Coven do Rio

Instagram: @anehoc_

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