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  • Foto do escritorAlan Cohen

Magia e a Expectativa com o Extraordinário



Quando as pessoas descobrem que sou praticante de magia, a reação imediata delas é de surpresa. Na minha vida pessoal e profissional sou conhecido como um homem bastante racional e lógico, então saber que estudo e pratico magia parece uma estranha contradição. Essa reação, obviamente, é motivada pela ideia de que magia é igual, em todas as proporções, àquilo que encontramos em obras de fantasia, onde cenas de pessoas voando em vassouras e atirando raios das mãos são retratadas.


O objetivo deste texto não é analisar de onde essa expectativa vem, pois isso já está estabelecido. Vamos pular esse debate, que diz respeito mais à grande massa, e nos concentrar naqueles que, de alguma forma, já se envolveram com magia, mas que ainda mantêm alguma expectativa "maravilhosa" em relação a ela.


Como líder de um Coven que recebe frequentemente pedidos de iniciação, fico bastante impressionado com o fato de que, mesmo entre aqueles que já orbitam os meios mágicos, muitos ainda alimentam esperanças fantasiosas quando se fala em magia.


Não me entendam mal: o trabalho mágico, especialmente dentro de um Coven sério, proporcionará sim experiências poderosas, profundas, transformadoras e mágicas, mas isso nada tem a ver com aprender a voar sobre uma vassoura. E digo mais: mesmo que isso fosse possível, ainda seria algo muito distante do Verdadeiro Poder que podemos manifestar por meio da prática mágica.


A lógica por trás disso é simples: vivemos em um plano totalmente físico e sensorial, e estamos limitados por ele. São nossos sentidos que dão forma a tudo aquilo que entendemos como real e inquestionável. Nossos sentidos definem os limites de verdade e mentira, de fato e hipótese. No entanto, ter esses medidores como critério nos afasta das regiões mais secretas e transformadoras do universo mágico.


Cada criatura na Terra estabelece uma percepção sobre o mundo de acordo com seus sentidos. Talvez o mundo não tenha as cores que acreditamos apenas porque as vemos, talvez tenha sons mais encantadores do que somos capazes de harmonizar, cheiros mais agradáveis do que podemos perceber e até mesmo sensações mais extáticas do que o próprio orgasmo. Ao tomar como referência puramente os nossos cinco sentidos, estamos eliminando uma miríade de maravilhas que poderiam ser contempladas e vividas. Mesmo que eu pudesse soltar fogo das mãos, isso ainda seria a parte menos importante do domínio sobre o elemento, pois o fogo que vemos é apenas uma combustão. Por trás disso, precisamos compreender que para mantê-lo é necessário o oxigênio como combustível, e sem ele o fogo não existiria. E se assim é, então precisamos entender que a essência do fogo não está em suas chamas manifestadas, mas sim na faísca furiosa e repentina de um raio. Ao compreendermos isso, veríamos que o fogo é como o raio. E seguiríamos ascendendo até as coisas maravilhosas que compõem o cosmo e que, embora desconhecidas, podemos suspeitar, contemplar e experimentar por meio do que é conhecido.


É possível ir além: se o fogo é o impulso feroz, a energia motriz em todas as coisas, será que existe fogo dentro da água? Poderíamos dizer que a chuva, a água em movimento, que desce sobre a Terra e a fecunda, é o fogo da água? E se há uma relação entre todas as coisas, como afirma o hermetismo, onde está o fogo da água dentro de nós? Se a água também representa nossos sentimentos, será que o fogo da água em nós são as correntes do inconsciente? Seriam os gatilhos? Então a chuva estaria relacionada aos impulsos inconscientes? Como podemos trabalhar com a chuva (o conhecido) para desbravar as correntes do inconsciente (o desconhecido)? Se essas ideias não te empolgam mais do que apenas querer voar sobre uma vassoura, talvez o seu lugar não seja conosco.


O que é fisicamente impressionante para os cinco sentidos nos aprisiona em uma realidade que existe apenas para aqueles que vivem sob esses parâmetros. Não podemos simplesmente desligá-los, mas podemos utilizar tudo o que eles nos permitem saber sobre o mundo para nos projetarmos sobre aquilo que eles não nos permitem saber. É por meio do que é conhecido que tateamos o desconhecido, e os frutos dessa prática são o que há de mais maravilhoso e espetacular na magia, cuja habilidade de voar e transformar um homem em sapo jamais poderiam se igualar.


Novamente, não me entendam mal. Somos bruxos, afinal! Utilizamos a magia sim para moldar o universo à nossa vontade, mas nada disso é verdadeiramente possível sem que a gente ligue os circuitos que conectam todas as coisas, e sem a compreensão sobre o que está por trás de tudo - inclusive do que os sentidos escondem de nós.


Alan Cohen

Alto Sacerdote do Coven do Rio

Instagram: @anehoc_ 

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